Por Diego Rodrigues Vitral
Médico veterinário e árbitro da ABCCMM

Marcha picada natural e de qualidade

Inegavelmente, nos últimos anos temos percebido que a marcha picada está tendo um crescimento exponencial em nossa raça. Ela tem se tornado cada vez mais uma realidade não só nas pistas do Nordeste como também nas do Sudeste. E sem dúvida tem sido em grande parte a montaria preferida dos usuários e iniciantes apaixonados pelo Mangalarga Marchador. Há algum tempo, essa modalidade de marcha que, diga se de passagem, nunca deixou de existir na nossa raça, voltou a ser valorizada e julgada nas pistas, na gestão do nosso então presidente, o saudoso Nelson Boechat Cunha. Porém, observava se uma falta de padronização no que se refere à qualidade dos animais, tanto no quesito marcha como também na conformação. Isso se deveu ao tempo em que esses animais ficaram fora das pistas e não tiveram uma “atenção especial” para que realmente fossem levados para a exposição. Com o passar do tempo, a demanda por esses animais foi aumentando, o processo e a pressão de seleção também e, acredito eu, um dos fatores que contribuíram para a rápida evolução da marcha picada, em si, foi graças à grande variabilidade genética, a grande quantidade de linhagens e o grande número de animais que a raça Mangalarga Marchador possui. Hoje, é muito comum chegar no parque de exposição e no julgamento de morfologia e a gente não saber se está sendo julgada a morfologia da marcha picada ou da marcha batida. A marcha batida e a marcha picada são, segundo o nosso padrão racial, um “andamento natural, marchado, simétrico, a quatro tempos, com o apoio alternado dos bípedes laterais e diagonais sempre intercalado por momentos de tríplice apoio”.  A diferença fundamental da marcha picada para a marcha batida é que na batida os momentos de apoio diagonal são maiores que os de lateral; já na marcha picada esses apoios laterais são quase ao mesmo tempo que os diagonais e, além disso, a frequência da passada é maior. Digo isso porque temos sempre que buscar em nossos cruzamentos animais de andamento NATURAL, DISSOCIADO (é quando dois membros tocam o solo em momentos distintos, gerando dois sons das batidas dos cascos), e é essa dissociação que causa a marcha! Resumindo, temos que acasalar marcha de qualidade com marcha de qualidade para se obter marcha batida e marcha picada de qualidade. É claro que sabemos que existem linhagens propensas para dar mais uma ou outra.

Não podemos ir na “onda” dos artificialismos. Correntes, embocaduras agressivas, excessos de pressão, “encartes” de andamento, que estamos vendo, pois, estes animais em nada contribuirão para a melhoria da marcha picada.

E a ENA (Escola Nacional de Árbitros) está atenta, tomando providências em relação a esses aspectos. Podemos citar como exemplo o uso do bridão para animais de até 48 meses, marcha curta no início e término das provas, apresentação da rédea livre ao final de cada concurso, e nós árbitros também estamos utilizando nossa experiência e sensibilidade para sabermos quais animais não têm o andamento natural e, neste caso, seguindo o regulamento fazemos a desclassificação.

Nós profissionais e criadores temos uma grande responsabilidade com a marcha picada, e chegou a hora de escolhermos qual o caminho a traçar. “Fabricar” cavalos sempre no artificialismo, na pressão, na embocadura agressiva, no ferrageamento corretivo, ou criar animais bem conformados, com consistência genética comprovada e andamento natural que será passado para os filhos, e assim por diante. Entendo que agora esse é o nosso novo e grande desafio. E com certeza o sucesso e a evolução, que já são evidentes, serão ainda mais consistentes, e o sucesso que já é visível será ainda mais garantido daqui para frente!